Vida vegetariana

Por um mundo melhor

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O que eu “posso comer” na dieta vegetariana

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Uma das grandes preocupações das pessoas que cogitam a possibilidade de se tornarem vegetarianas é pensar no que se pode comer, tanto em casa como, principalmente, fora dela.

Em primeiro lugar, esclareço que sou vegetariano estrito. O que é isso? Vegetariano, em tese, é quem alimenta-se apenas de vegetais. Existem estágios (ou classificações) dentro do vegetarianismo, a saber:
– Ovo-lacto-vegetariano: alimenta-se de vegetais, ovos, lácteos e, talvez, mel;
– Lacto-vegetariano: alimenta-se de vegetais, lácteos e, talvez, mel;
– Ovo-vegetariano: alimenta-se de vegetais, ovos e, talvez, mel;
– Vegetariano estrito: alimenta-se de vegetais (e opcionalmente de produtos industrializados, assim como os demais);
– Vegano: é um vegetariano estrito que não contribui com a exploração animal também no vestuário (couro, seda, etc), diversão (circos com animais, zoológicos, shows aquáticos, aquários, etc), produtos testados em animais, assim como caçadas, tração e qualquer outro meio em que eles sejam utilizados;
– crudívoro: é um vegetariano estrito que só consome alimentos que não passaram pelo processo de cozimento ou qualquer outra transformação;
– frugívoro: é um vegetariano estrito que só consome frutas (excluindo da dieta os cereais, folhas e plantas).

Existem outras denominações mais recentes, como piscitariano (come vegetais e peixes) ou flexitariano (come carnes de vez em quando). Tecnicamente, estes não são vegetarianos.

Agora vamos ao que interessa: moro em João Pessoa, uma cidade que não tem um grande número de vegetarianos (pelo menos que eu tenha conhecimento), mesmo na comunidade local no Orkut. Aqui existe apenas um restaurante ovo-lacto-vegetariano, o Govinda, sendo uma boa opção também para os estritos. Há também restaurantes naturais (de produtos orgânicos), como o Oca. Mas nesse post, quero colocar justamente o cardápio de rotina e as soluções improvisadas que, combinadas ou mesmo isoladas, podem ser uma boa refeição ou, pelo menos, dar uma sobrevida nos momentos de auto-fagia estomacal.

Café da manhã:
– Frutas;
– Granola;
– Ração humana: eu mesmo faço a minha com aveia, amaranto, quinua real, gérmen de trigo e farinhas de castanha de caju, linhaça, gergelim, girassol, soja, milho e laranjeira com mel de engenho (melaço de cana), receita de nutricionista. Adicionei marapuama e guaraná, à revelia;
– Cuscuz;
– Tapioca com côco;
– Pão integral com margarina Becel; *
– “iogurte” ou “danete” de soja: a linha Naturis, da Batavo, é ótima; *
– Torrada integral com patê de soja com azeitona, alho ou outros sabores: sempre encontro na Mundo Verde;
– Bolacha Cream Cracker integral: sem lácteos ou ovos, encontrei a Pilar e Marilan;
– Sanduíches com tofu (“queijo” de soja) misturado com shoyu: encontro tofu na Mundo Verde ou no Extra;
– “Shakes” de soja – tenho consumido os da Jasmine: com Nescau 2.0 (não contem lácteos); *

Almoço:
– Saladas e vegetais em geral: sempre uma boa opção. Sempre verifico se há queijo ou presunto (estranho, mas tem gente que põe presunto!);
– feijão verde: é bom ter cuidado, pois já encontrei feijão com charque!
– Arroz: de preferência vermelho ou integral. Na falta, um arroz branco quebra o galho. Na dúvida, não como arroz refogado;
– Macarrão: sempre verifico, pois muitas massas contém ovos;
– Proteína texturizada de soja: fica gostosa, quando bem preparada, mas não recomendável para comer todos os dias;
– Milho, ervilha, azeitona, alcaparras, champingnon, palmito, cebola e outros vegetais/fungos em conserva;
– feijões preto, macaça e carioquinha e fava: em minha casa, são preparados sem carnes. Não me arrisco a comer na rua;
– Macaxeira, batata, inhame e afins;
– Farinha de mandioca;
– Batatas fritas: com moderação;
– “Carne” de beterraba, caju, cenoura e outras invenções: por incrível que pareça, o resultado pode ser muito bom;
– Similares de almôndegas, salsichas, bifes, medalhões e afins, feitos de soja: nunca comprei, mas vi vários tipos para vender no Extra;
– Miojo de Yakisoba, sabor oriental: existe outro Yakisoba da Nissin, sabor tradicional, que é preparado com carne e frango; *
– Yakisoba vegetariano: opção disponível ou negociável em alguns restaurantes. Sempre pergunto se o macarrão e/ou o bifum (em tese, feito somente de arroz) contém ovos;
– Azeite: sempre;
– Sucos;
– Hamburguer de soja da Perdigão; *
– Molhos madeira e barbecue, cat chup e mostarda;
– Sobremesas: salada de frutas, rapadura, alguns chocolates meio amargos e goiabada;

Jantar:
– Pão francês com patê, Becel, tofu, etc: o pão francês, em tese, é feito com farinha, sal e fermento. Algumas padarias usam ovos. Eu sempre pergunto;
– Pão integral com acompanhamentos;
– Cuscuz;
– Macaxeira, batata, inhame e afins;
– Açaí: sempre enfatizo bem: “sem leite condensado, farinha láctea e mel”;
– Nozes;
– Sucos: e os sucos de ameixa ou açaí sem leite também ficam gostosos;
– Hamburguer de soja da Perdigão; *

Lanches:
– Frutas ou saladas;
– Pastel de soja: encontro na Mundo Verde, Casa dos Integrais ou na faculdade em que trabalho;
– Barrinha de cereais: até agora, só encontrei “limpas” as de castanha-do-pará e banana da Nutry;
– Castanhas de caju e amendoim;
– Batatas fritas;
– Club Social, sabor Original: os outros que pesquisei contém lácteos; *
– Negresco, Escureto e afins: me surpreendi quando descobri que não contém lácteos; *
– Salgadinhos integrais da Vitao;
– Sojinha: grãos de soja crocantes – encontro na Casa dos Integrais e na Mundo Verde;
– Salgadinhos de batata frita, como Ruffles (sabor Original), Stack (sabor Original) e afins, ou batata palha; *
– Hamburguer de soja da Perdigão; *
– Chocolates: Orgânico da Cacau Show, Meio Amargo da Casino (Pão-de-Açúcar), da marca Carrefour, em barra de 1 Kg da Harald ou em tabletes disponíveis na Mundo Verde;

Provavelmente estou esquecendo muitas coisas. Existem vários livros, sites, e comunidades no Orkut com muitas receitas interessantes. As informações acima têm caráter de exposição de possibilidades acima e não são recomendação ou sugestão. Se tiver interesse, recomendo procurar um nutricionista, como eu o fiz.

Os produtos marcados com asterisco (*) são produzidos por marcas boicotadas por veganos, por utilizarem, em outros itens, ingredientes de origem animal e/ou testarem em animais os seus produtos.

Written by candeeiroverde

24 de abril de 2010 at 2:53 pm

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A comida como ela é

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Para falar sobre a motivação alimentar humana, recorri a um trecho do livro A Doutrina de Buda (Ed. Martin Claret, 2003, p. 83-84):

“Os homens tem paixões mundanas que os levam somente às ilusões e sofrimentos. Há cinco maneiras pelas quais eles podem se livrar dos grilhões destas paixões.

Primeira, devem ter idéias corretas das coisas, idéias estas baseadas em cuidadosa observação, devem compreender corretamente o significado das causas e efeitos. Desde que a causa do sofrimento se acha arraigada nos desejos e apegos da mente, e desde que estes são frutos das errôneas observações do ego que negligencia o significado da lei da causa e efeito, só poderá haver paz, se a mente puder fugir destas paixões mundanas.

Segunda, os homens podem evitar estas observações erradas que originam as paixões mundanas, através de um paciente controle da mente. Com o eficiente controle mental, pode-se evitar todos os desejos que surgem das sensações dos olhos, ouvidos, nariz, língua, tato e dos subsequentes processos mentais; se assim se fizer, poder-se-á cortar as paixões mundanas em sua raiz.

Terceira, deve-se ter idéias corretas a respeito do adequado uso das coisas. Assim, com relação ao alimento e à roupa, não se deve pensar em termos de conforto e prazer, mas sim, em termos das necessidades do corpo. A roupa é necessária para proteger o corpo dos extremos do calor e do frio; o alimento é necessário para nutrição do corpo. Deste correto modo de pensar não brotarão as paixões mundanas.

Quarta, deve-se aprender a ser tolerante; deve-se aprender a tolerar os desconfortos do calor e do frio, da fome e da sede; deve-se aprender a ser paciente quando se recebe abuso ou desprezo. É pela prática da tolerância que se debela o fogo das paixões mundanas que consome o corpo.

Quinta, deve-se aprender a ver e evitar o perigo. Assim como o homem prudente evita os cavalos selvagens e os cães raivosos, não se deve ter como amigos os homens perversos, nem freqüentar lugares evitados pelos sensatos. Praticando-se a cautela e a prudência, poder-se-sá extinguir o fogo da paixões mundanas.

2. No mundo existem cinco grupos de desejos. Referem-se e se originam dos cinco sentidos. Assim temos: desejos que surgem das formas que os lhos vêem; dos sons que os ouvidos escutam; das fragrâncias que o nariz sente; do paladar que a língua sente, e das coisas que são agradáveis ao tato. Destas cinco portas abertas ao desejo, nasce o amor pelo conforto do corpo.

Muitos homens, por alimentar o amor ao bem estar do corpo, não percebem os males que seguem o conforto e são apanhados pelas demoníacas ciladas, como um cervo é apanhado pela armadilha do caçador. Estes cinco desejos, que surgem das diferentes sensações, são as mais perigosas armadilhas. Sendo apanhados por elas, os homens se enredam nas paixões mundanas e sofrem. Devem aprender um meio pelo qual possam escapar dessas ciladas.”

Para as pessoas, a alimentação vai muito além da nutrição. O motivo mais óbvio é a satisfação do paladar. Quantas coisas não sabemos que são sensivelmente ofensivas ao corpo e as ingerimos, por alguns segundos de prazer ao passar pela boca? É difícil, por exemplo, encontrar fora de casa um feijão que não tenha sido preparado com carne. Mesmo em feijão verde (muito apreciado aqui no Nordeste), que em tese só precisa de coentro para ficar muito bom, já encontrei pedaços de charque ou uma pessoa que me é próxima temperando-o com tabletes de caldo de carne.

Porém, a comida tem que agradar também ao olfato. É por isso que muitos produtos industrializados recebem pesados aromatizantes. Você já experimentou tomar um refrigerante tampando o nariz? Quando eu os consumia, fiz esse teste e achei essa bebida muito sem graça ingerida dessa forma.

Bom… Até aqui, nada que não seja muito óbvio. Mas por que a alimentação tem que que também agradar à visão? Eu não falo de algo ter o aspecto ruim, no sentido de estar imprópria. O que falo é de se fazer algo parecer mais bonito. Já viu que as guloseimas que encantam a vista nas docerias são mais bonitas que muitas obras de arte? E os corantes? Já se informou sobre o quanto os corantes químicos são prejudiciais? O fantástico intelecto humano, sempre tão cheio de idéias mirabolantes [sim, estou sendo irônico], “resolveu o problema” da tintura vermelha moendo muitos e muitos insetos, chamados colchonilhas, para produzir um corante disfarçado industrialmente sob os nomes de vermelho 40, Vermelho 4, Vermelho 3, Carmim, Cochineal, Corante natural carmim de Cochonilha, Corante C.I ou Corante ou Colorizante E120. A revista do IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) de julho de 2009 traz um interessante artigo sobre os corantes.

Ainda falta falar sobre o tato e a audição. Quantos alimentos não se perdem porque eles simplesmente não estão mais quentinhos ou porque não estão mais crocantes, mesmo não estando comprometidos para a ingestão? Pães, biscoitos, salgadinhos… Para fazer com que certos alimentos apresentem consistência agradável, adiciona-se emulsificantes às suas composições.

O ato de comer tornou-se um ritual. Outro dia, eu estava pensando no fato que quase todos os encontros e eventos sociais são refeições. As pessoas não marcam de encontrar-se na areia da praia ou em um banco de praça para se encontrarem. Sim… Há luais. Mas quase sempre envolvem comida. Muitos aniversários hoje são comemorados com churrascos ou rodízios de pizza. Celebrações como páscoa e natal viraram sinônimo de ceia farta.

Muitos conhecidos contra-argumentam o vegetarianismo sob o pretexto da nutrição. Isso para mim é um argumento inválido, já que centenas de milhões de pessoas no mundo vivem normalmente em dieta vegetariana estrita. Mas o cômico, ou trágico, é que essas pessoas nunca foram a um nutricionista pedir uma dieta que consumisse o mínimo de carne e leite possível. Mesmo se tivesse feito isso, provavelmente não a seguiriam.

O fato é que, infelizmente, as pessoas hoje comem por motivos que vão muito além da nutrição. Isso quando a comida não está na contra-mão da saúde do corpo. Nesses dias, alguém me disse: “você está se alimentando como se a comida fosse uma ração”. Respondi: “bingo”. Não fui totalmente sincero, pois ainda não me alimento como gostaria, ao consumir produtos industrializados, mesmo que sejam junk food vegan. Passar 48 ou mesmo 72 horas ingerindo apenas água é uma experiência muito interessante, pois percebemos o quão fútil é nossa alimentação. É pena que, pouco tempo depois, não lembremos mais disto.

Written by candeeiroverde

8 de abril de 2010 at 6:06 pm

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Como me tornei vegetariano

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Em março de 2007, vegetarianismo para mim era apenas algo de que eu ouvia falar e que nunca associava à minha vida, até que uma amiga apresentou-me Terráqueos. O filme deixou-me transtornado. Nunca havia pensado profundamente na origem de minhas refeições. A carne era algo absolutamente normal e inquestionável. Os rodízios eram confraternizações com amigos. Tudo “normal”. Mas a ilusão foi embora.

Logo depois, tive uma inclinação para parar com vida creófila, mas não durou muito. Caí na ilusão que poderia reduzir o consumo. Talvez o tenha feito por uma semana. Depois voltei ao “normal”. O engraçado é que o filme fala, no início, sobre os três estágios da verdade: ridicularização, oposição violenta e aceitação. Logo que “desencanei”, passei a tentar desmerecer o filme. Dizia que ele citava as situações mais extremas como padrão, dentre tantas outras coisas. Depois, passei ao segundo estágio, sem me dar conta disto. Passei a frequentar comunidades e refutar argumentos pró-vegetarianismo. Antes este assunto me era indiferente. Naquele momento, eu estava fazendo oposição. Então eu pensei: “Por que?”.

O filme me mostrou uma possibilidade de verdade. A mim, cabia acreditar ou não. Não paguei e nem fui obrigado a vê-lo. Agora isso muito me incomodava. Algumas linhas psicológicas dizem que quando algo ou alguém muito incomoda gratuitamente, isto pode ser um sinal de que algo está ferido dentro de si. Então cessei a oposição e passei a tentar ignorar estas idéias e voltar à “inocência perdida”. Durante algum tempo, o conflito interno ficou menos latente. Mas a culpa existia a cada garfada.

Outro dia, comecei a ver A Carne é Fraca. Nem vi todo. As cenas são bem menos chocantes que Terráqueos, mas a coisa estava bem mais evidente. Comecei a quase não ir mais a rodízios. Quando ía, comia muito mais feijão, batata e pão de alho. Mas quanto mais eu reduzia, mais me amargurava o fato de ainda comer carne.

Uma certa noite de domingo, depois de um dia alimentar “normal”, eu disse: “amanhã eu não vou comer nenhum derivado de origem animal”. Na manhã seguinte, mesmo que muitas vezes antes eu tenha ficado sem café da manhã, fiquei muito incomodado por não “poder” comer queijos ou mesmo carnes. Aproveitei o ensejo e parei também o açúcar. Sustentei o esforço durante todo o dia. No dia seguinte, amanheci muito bem. Tão bem que decidi continuar com a mesma alimentação. Mais tarde, porém, comecei a sentir-me fraco, como algumas pessoas disseram que aconteceria.

No terceiro dia, senti tonturas. Liguei para um amigo e ele aconselhou-me a voltar, por um tempo, a comer peixes e crustáceos, leites, ovos e o açúcar. Os peixes e crustáceos eu mantive por duas semanas mais e então parei em definitivo. O leite e os ovos passaram ainda quase dois meses no meu cardápio.

Hoje eu tenho uma dieta vegetariana estrita (sem produtos de origem animal) e vivo muito melhor que antes. Não me sinto fraco nem restrito. Perdi 14 quilos no início. Depois o corpo estabilizou-se e tenho mantido o mesmo peso nos últimos meses. Sinal de que os exercícios são mais que necessários. Sinto que outra guerra se aproxima…

Janio Carlos M. Vieira

candeeiroverde@neoline.com.br

Written by candeeiroverde

2 de abril de 2010 at 12:23 pm

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