Vida vegetariana

Por um mundo melhor

A comida como ela é

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Para falar sobre a motivação alimentar humana, recorri a um trecho do livro A Doutrina de Buda (Ed. Martin Claret, 2003, p. 83-84):

“Os homens tem paixões mundanas que os levam somente às ilusões e sofrimentos. Há cinco maneiras pelas quais eles podem se livrar dos grilhões destas paixões.

Primeira, devem ter idéias corretas das coisas, idéias estas baseadas em cuidadosa observação, devem compreender corretamente o significado das causas e efeitos. Desde que a causa do sofrimento se acha arraigada nos desejos e apegos da mente, e desde que estes são frutos das errôneas observações do ego que negligencia o significado da lei da causa e efeito, só poderá haver paz, se a mente puder fugir destas paixões mundanas.

Segunda, os homens podem evitar estas observações erradas que originam as paixões mundanas, através de um paciente controle da mente. Com o eficiente controle mental, pode-se evitar todos os desejos que surgem das sensações dos olhos, ouvidos, nariz, língua, tato e dos subsequentes processos mentais; se assim se fizer, poder-se-á cortar as paixões mundanas em sua raiz.

Terceira, deve-se ter idéias corretas a respeito do adequado uso das coisas. Assim, com relação ao alimento e à roupa, não se deve pensar em termos de conforto e prazer, mas sim, em termos das necessidades do corpo. A roupa é necessária para proteger o corpo dos extremos do calor e do frio; o alimento é necessário para nutrição do corpo. Deste correto modo de pensar não brotarão as paixões mundanas.

Quarta, deve-se aprender a ser tolerante; deve-se aprender a tolerar os desconfortos do calor e do frio, da fome e da sede; deve-se aprender a ser paciente quando se recebe abuso ou desprezo. É pela prática da tolerância que se debela o fogo das paixões mundanas que consome o corpo.

Quinta, deve-se aprender a ver e evitar o perigo. Assim como o homem prudente evita os cavalos selvagens e os cães raivosos, não se deve ter como amigos os homens perversos, nem freqüentar lugares evitados pelos sensatos. Praticando-se a cautela e a prudência, poder-se-sá extinguir o fogo da paixões mundanas.

2. No mundo existem cinco grupos de desejos. Referem-se e se originam dos cinco sentidos. Assim temos: desejos que surgem das formas que os lhos vêem; dos sons que os ouvidos escutam; das fragrâncias que o nariz sente; do paladar que a língua sente, e das coisas que são agradáveis ao tato. Destas cinco portas abertas ao desejo, nasce o amor pelo conforto do corpo.

Muitos homens, por alimentar o amor ao bem estar do corpo, não percebem os males que seguem o conforto e são apanhados pelas demoníacas ciladas, como um cervo é apanhado pela armadilha do caçador. Estes cinco desejos, que surgem das diferentes sensações, são as mais perigosas armadilhas. Sendo apanhados por elas, os homens se enredam nas paixões mundanas e sofrem. Devem aprender um meio pelo qual possam escapar dessas ciladas.”

Para as pessoas, a alimentação vai muito além da nutrição. O motivo mais óbvio é a satisfação do paladar. Quantas coisas não sabemos que são sensivelmente ofensivas ao corpo e as ingerimos, por alguns segundos de prazer ao passar pela boca? É difícil, por exemplo, encontrar fora de casa um feijão que não tenha sido preparado com carne. Mesmo em feijão verde (muito apreciado aqui no Nordeste), que em tese só precisa de coentro para ficar muito bom, já encontrei pedaços de charque ou uma pessoa que me é próxima temperando-o com tabletes de caldo de carne.

Porém, a comida tem que agradar também ao olfato. É por isso que muitos produtos industrializados recebem pesados aromatizantes. Você já experimentou tomar um refrigerante tampando o nariz? Quando eu os consumia, fiz esse teste e achei essa bebida muito sem graça ingerida dessa forma.

Bom… Até aqui, nada que não seja muito óbvio. Mas por que a alimentação tem que que também agradar à visão? Eu não falo de algo ter o aspecto ruim, no sentido de estar imprópria. O que falo é de se fazer algo parecer mais bonito. Já viu que as guloseimas que encantam a vista nas docerias são mais bonitas que muitas obras de arte? E os corantes? Já se informou sobre o quanto os corantes químicos são prejudiciais? O fantástico intelecto humano, sempre tão cheio de idéias mirabolantes [sim, estou sendo irônico], “resolveu o problema” da tintura vermelha moendo muitos e muitos insetos, chamados colchonilhas, para produzir um corante disfarçado industrialmente sob os nomes de vermelho 40, Vermelho 4, Vermelho 3, Carmim, Cochineal, Corante natural carmim de Cochonilha, Corante C.I ou Corante ou Colorizante E120. A revista do IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) de julho de 2009 traz um interessante artigo sobre os corantes.

Ainda falta falar sobre o tato e a audição. Quantos alimentos não se perdem porque eles simplesmente não estão mais quentinhos ou porque não estão mais crocantes, mesmo não estando comprometidos para a ingestão? Pães, biscoitos, salgadinhos… Para fazer com que certos alimentos apresentem consistência agradável, adiciona-se emulsificantes às suas composições.

O ato de comer tornou-se um ritual. Outro dia, eu estava pensando no fato que quase todos os encontros e eventos sociais são refeições. As pessoas não marcam de encontrar-se na areia da praia ou em um banco de praça para se encontrarem. Sim… Há luais. Mas quase sempre envolvem comida. Muitos aniversários hoje são comemorados com churrascos ou rodízios de pizza. Celebrações como páscoa e natal viraram sinônimo de ceia farta.

Muitos conhecidos contra-argumentam o vegetarianismo sob o pretexto da nutrição. Isso para mim é um argumento inválido, já que centenas de milhões de pessoas no mundo vivem normalmente em dieta vegetariana estrita. Mas o cômico, ou trágico, é que essas pessoas nunca foram a um nutricionista pedir uma dieta que consumisse o mínimo de carne e leite possível. Mesmo se tivesse feito isso, provavelmente não a seguiriam.

O fato é que, infelizmente, as pessoas hoje comem por motivos que vão muito além da nutrição. Isso quando a comida não está na contra-mão da saúde do corpo. Nesses dias, alguém me disse: “você está se alimentando como se a comida fosse uma ração”. Respondi: “bingo”. Não fui totalmente sincero, pois ainda não me alimento como gostaria, ao consumir produtos industrializados, mesmo que sejam junk food vegan. Passar 48 ou mesmo 72 horas ingerindo apenas água é uma experiência muito interessante, pois percebemos o quão fútil é nossa alimentação. É pena que, pouco tempo depois, não lembremos mais disto.

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Written by candeeiroverde

8 de abril de 2010 às 6:06 pm

Publicado em Uncategorized

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