Vida vegetariana

Por um mundo melhor

O preço da soja

with one comment

Aqueles que criticam o vegetarianismo muitas vezes argumentam que a soja é responsável pelo desmatamento da Amazônia, pela contaminação do solo, rios e lençóis freáticos por defensivos agrícolas e pela morte de animais pelo uso dos pesticidas e do maquinário em geral.

O texto abaixo reflete este quadro:

Os maiores impactos ambientais são aqueles típicos das grandes monoculturas: desmatamento, contaminação das águas, assoreamento dos rios e nascentes, perda de biodiversidade e de solos e outros impactos indiretos causados sobretudo pela construção de infra-estrutura de escoamento da produção, como portos, hidrovias, ferrovias e rodovias.

No Brasil, os biomas mais atingidos são, nesta ordem, os Cerrados e a Amazônia. Nesta, a área agrícola já absorve áreas de quase todos os estados e a produção de soja, ocupando mais de 3 milhões de hectares, corresponde a um quinto de toda a produção do país. O Cerrado é o segundo maior bioma do país, com cerca de 2 milhões de km2, 22% do território brasileiro, e estende-se em área contínua por 11 estados brasileiros. As estimativas são de que cerca de 50% da área original do bioma já estejam alteradas. É preocupante o fato de que somente 2% de seu território esteja protegido sob a forma de unidades de conservação, apesar de ser considerada a savana mais rica em biodiversidade do mundo.

A expansão na região de floresta amazônica do Estado do Mato Grosso é, por certo, a maior responsável pela número recorde de 26.130 quilômetros quadrados de desmatamento da Amazônia, entre agosto de 2003 e agosto de 2004, um crescimento de 6% em relação ao período anterior, concentrado em cerca de 50% no Mato Grosso (12.556 quilômetros quadrados).

Quanto aos agrotóxicos, relativamente ao cultivo da soja, destaca-se, além, dos grandes volumes utilizados, a pulverização por aviões, provocando a contaminação de outras áreas, o que constitui ameaça aos pequenos produtores de outros cultivos, à produção orgânica e à qualidade da água, entre outras. Na região nordestina do Cerrado, o uso de pesticidas é uma ameaça ao abastecimento. O mesmo ocorre com o aqüífero Guarani, no sul do Brasil, por infiltração de agrotóxicos e outros poluentes.

O cultivo e transporte da soja, da maneira que se dá nos dias de hoje, requer também, que seja considerada toda a cadeia produtiva e seu elevado consumo de energia, inclusive na fabricação de fertilizantes e agrotóxicos, no maquinário utilizado diretamente na produção e no transporte. A lenha é ainda utilizada pelas grandes traders como principal fonte energética no processo de esmagamento da soja, o que agrava ainda mais o desmatamento do Cerrado. (SCHLESINGER, 2010)

José Maria da Silveira descreve brevemente a história recente da soja no Brasil:

A produção de soja no Brasil expandiu-se rapidamente no início dos anos 70 como uma produção tipicamente agroindustrial. Atingiu um pico em 1989, com 24 milhões de toneladas, caindo no início da década de 90 (abaixo de 20 milhões ton/ano), mas recuperando-se progressivamente, até superar a marca de 30 milhões de toneladas na safra 1997/98. Com velocidade semelhante à da expansão do plantio foram criadas plantas esmagadoras – que transformam a soja em grão, em óleo e farelo bruto – e, em menor proporção, indústrias para refino do óleo destinado à alimentação humana, que ainda é o mais consumido mundialmente (competindo diretamente com o óleo de palma).

Tendo se transformado na principal região produtora de soja do país, superando os 10 milhões de toneladas anuais, a região Centro-oeste também se tornou o principal pólo da agroindústria esmagadora, atraindo também a produção e o processamento de carne de aves. Isto se deu principalmente pela participação ativa de grandes grupos nacionais que atuam na cadeia de oleaginosas e de carnes. Também foi fundamental a política de crédito para comercialização implementada pelo Governo, principalmente na década de 80, que permitiu às empresas e aos agricultores arcarem com o custo de transição e adaptação a uma nova região produtora.

Apesar do surgimento de novos competidores, como a Argentina e o Paraguai, o Brasil continua detendo expressivas parcelas no mercado internacional. Em 1997, o país participou com 21,9% do mercado de soja em grão, 30,8% do mercado de farelo e 15% do mercado de óleo de soja. A participação em cada um desses mercados oscila de ano para ano, sem que o Brasil reduza significativamente sua participação global no complexo soja, em torno de 25%, revelando a flexibilidade agroindustrial para adaptar-se aos sinais de mercado.

Além de sua enorme importância para a balança comercial brasileira, conforme mostram os gráficos da Evolução e dos Principais Itens da Pauta de Exportação de Produtos de Origem Agropecuária, a produção de soja também é fundamental para o abastecimento interno. O farelo de soja, além de servir para a alimentação humana – assim como o óleo de soja, que faz parte da cesta básica -, é utilizado na ração animal, principalmente para frangos. (SILVEIRA, 2010)

O que os críticos não mencionam é o destino da maior parte desta soja. Apesar de conter pesquisas até de 2009, o site da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa) cita dados de 2006 para mostrar  o destino da soja. Segundo a instituição governamental (EMBRAPA, 2010), baseada em informações do FMI e CEPEA, em 2006 o Brasil produziu 58,4 milhões de toneladas de soja, das quais somente 2,7 milhões de toneladas foram utilizadas para a alimentação humana (5,09%  do total).

Para onde vão os outros 94,91% da soja produzida no Brasil? Grande parte é exportada para Estados Unidos e Europa, para alimentação dos rebanhos.  Segundo os dados da Embrapa, 22,389 milhões de toneladas de grãos, 13,89 milhões de toneladas de farelo e 2,595 milhões de toneladas de óleo foram exportados em 2006. Parte do que fica é usado para a produção de óleo, usado para consumo industrial e residencial e, recentemente, como biodiesel, por ser a opção de menor custo (BERNARDES, 2006).

Dentre o pouco que é destinado para consumo humano, os destinos mais comuns são o  “leite” de soja, a lecitina (usada como componente em muitos alimentos) e a proteína vegetal texturizada (PVT, conhecida também como PTS – proteína texturizada de soja).  Sejamos sinceros: quantas pessoas que você conhece consomem “leite” ou “carne” de soja? Dentre estas, quantas são vegetarianas?

O consumo crescente da soja é um problema ecológico sério? Sim. Suprir este consumo é a principal causa da existência das grandes monoculturas? Sim. Manusear enormes plantações de soja requerem o uso de defensivos agrícolas? Sim. A facilitação deste manuseio é obtida, sob alto preço, pelo uso dos transgênicos? Sim. E esta conta é dos vegetarianos? Não.

A grande maioria da soja vai para o consumo animal, especialmente para a criação de aves, bovinos e suínos. Outro fator a se pensar é que são necessários de sete a dez quilos de grãos para cada quilo de carne bovina produzida. Se todos fossem vegetarianos e consumissem soja regularmente, a área proporcional destinada à produção de soja para alimentação animal poderia ser reduzida para, no máximo, 1/7  da atual ou, utilizando a mesma área que hoje, produziria-se pelo menos sete vezes mais alimentos para humanos.

E agora vem a pergunta mais pertinente, que talvez até dispense tudo o que foi escrito acima: quem foi que disse que vegetarianos precisam mesmo de soja para viver? É cômodo usá-la? Sim. Torna a alimentação mais saborosa? Sim, para os padrões de quem acostumou-se à vida creófila. A soja é indispensável para quem não consome produtos de origem animal? Respondo esta pergunta com uma sugestão de verbetes a serem pesquisados na Internet: crudivorismo e frugivorismo (Um dia eu chego lá!).

Concluindo: falácia é um argumento lógico inválido, com o intuito de manipular a visão de um fato para um ponto de vista que interessa ao retórico parecer ser a verdade. Atribuir os problemas causados pelo uso exagerado da soja aos vegetarianos, quando a grande maioria da soja vai para consumo animal ou para a produção de óleo e somente pouco mais que 5% desta é utilizada na alimentação humana, considerando ainda que uma boa parte destes produtos são consumidos por não vegetarianos, ao meu ver, caracteriza-se como falácia.

Referências bibliográficas:

BERNARDES, Julio. Biodiesel de soja é mais barato. Agenusp. 2006. Disponível em: <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=010115060524&gt;. Acesso em: 27 jun. 2010.

EMBRAPA. Embrapa Soja. Disponível em: <http://www.cnpso.embrapa.br/index.php?cod_pai=2&op_page=294&gt;. Acesso em: 27 jun. 2010.

SCHLESINGER, Sérgio. A soja no Brasil. Disponível em: <http://www.comova.org.br/pdf/observandosoja/12-A-soja-no-Brasil.pdf&gt;. Acesso em: 27 jun. 2010.

SILVEIRA, José Maria da. A produção de soja no Brasil. Disponível em: <http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/20337&gt;. Acesso em: 27 jun. 2010.

Anúncios

Written by candeeiroverde

29 de junho de 2010 às 12:26 pm

Publicado em Uncategorized

Uma resposta

Subscribe to comments with RSS.

  1. Certo, mas fica explicito um detalhe, os tipos de consumo da soja.

    Daniel

    29 de junho de 2010 at 12:41 pm


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: